Trovas, Neotrovismo, Literatura, Livros, Movimento Trovadoresco, Trovismo, Trovadorismo, Trova, Poesia, Cultura Popular
Escritor e Historiador Clério José Borges
Comendador, Poeta Trovador Capixaba. Figura proeminente na cena cultural do Espírito Santo.
Textos

SETE SÍLABAS DE IMORTALIDADE: A SAGA DA ACLAPTCTC

 

O inverno capixaba de 1980 mal sabia que estava prestes a ser eternizado em versos. No dia primeiro de julho daquele ano, a partir de uma proposição do escritor Eno Teodoro Wanke — idealizada em uma lanchonete defronte à Praça Duque de Caxias, em Vila Velha —, a trova estabeleceu o seu quartel-general. Naquela ocasião, fundava-se o Clube dos Trovadores Capixabas (CTC), agremiação responsável por deflagrar um novo movimento em prol da trova, gênero lírico minimalista composto por quatro versos heptassílabos (redondilha maior), dotados de rima e sentido completo.

À frente do projeto encontrava-se o Comendador e Mestre da Cultura Capixaba, Clério José Borges, que exercia uma liderança firme e agregadora. Ao seu lado, os primos Luiz Carlos Braga Ribeiro e José Borges Ribeiro Filho consolidaram as bases jurídicas e institucionais da entidade cultural. Pouco tempo depois, Clério José Borges buscou interlocução, em Vitória, com o experiente e renomado trovador Elmo Elton. O saudoso intelectual, reconhecido por seu rigor metódico, ajustava as vírgulas de seus textos com a precisão de quem afina um violino para a posteridade.

A este núcleo inicial somaram-se outras figuras fundamentais. Albércio Nunes, cujas rimas permanecem ativas na contemporaneidade, consolidou-se como a memória viva e testemunha dos primeiros desafios institucionais. Emanuel Barcellos e Zedânove Tavares Sucupira atuavam como guardiões da técnica literária; mediam as sílabas poéticas com uma régua invisível, exigindo rigorosamente a métrica setenária — nem seis, nem oito sílabas. Em contrapartida, Geraldo Nascimento destacava-se pela capacidade de declamar trovas de improviso, recurso que descontraía o ambiente, aproximava o público e popularizava a agremiação.

A despeito da ausência de sede própria e de subvenções financeiras, os fundadores dispunham de um propósito mais perene: as sete sílabas, os quatro versos e a obstinação daqueles que acreditavam que a poesia, além de acessível, possui caráter transformador.

Os anos subsequentes foram marcados por intensas disputas no campo simbólico. A trova era frequentemente marginalizada e rotulada pela crítica como uma "poesia menor", enquanto os saraus permaneciam restritos às elites intelectuais. O CTC, contudo, subverteu essa lógica excludente. A agremiação democratizou o acesso à literatura ao levar os versos para praças públicas, instituições de ensino, emissoras de rádio e transportes coletivos.

Nesse período de consolidação, Clério José Borges empenhou-se pessoalmente na busca por apoio institucional e fomento. Paralelamente, o professor Nasceu de Paiva destacou-se por declamar poesias em qualquer espaço que dispusesse de um microfone. Pouco depois, o movimento ganhou a importante adesão de Matusalém Dias de Moura, que partiu do município de Iúna para fortalecer a presença da trova nas cidades de Vitória, Vila Velha e Serra, nas reuniões de Trovadores com Carlos Dorsch, José Augusto de Carvalho como quem lavra testamento. Albercinho e seu pai exímio Trovador Albércio Vieira Machado faziam trovas registrando tudo num caderninho de escola para não deixar o verso ficar esquecido. Com o tempo surgem os Seminários Nacionais da TROVA e depois os Congressos Brasileiros de Poetas Trovadores. Gente nova começa a surgir. Roberto Vasco corrigia os novos, severo e generoso. Geraldo Fernandes lotava auditório porque fazia a plateia gargalhar e depois chorar, tudo em quatro versos.

Cada um defendia a trova de um jeito. Clério via movimento cultural, trincheira política. Roberto Vasco via performance, emoção na pele.  Num evento cultural na Praça Costa Pereira em Vitória surge o professor José Rocha Ramos Mestre da literatura que se engaja no movimento da Trova. Surge o Neotrovismo, movimento cultural em torno da TROVA no Brasil. O Neotrovismo nasce para ficar. Albércio via tradição oral, herança. Rocha Ramos já falecido, primava pela metrificação correta e objetiva e com disciplina métrica. Surge Katia Bobbio defendendo a TROVA popular, feita com palavras de fácil compreensão e o Cordel Nordestino. Rocha Ramos defendendo também o humor na Trova. A teimosia de Clério José Borges de não ceder e não deixar o movimento dos Trovadores não morrer no Estado do Espírito Santo virou legado.

O tempo passou e o Clube cresceu. Virou casa de 50 Acadêmicos Titulares Imortais. Ganhou 162 Acadêmicos Correspondentes espalhados pelo Brasil. Abriu as portas para os Acadêmicos Beneméritos que seguraram as pontas nos dias de bolso vazio. E revelou os Infanto Juvenis, que chegavam com caderno na mão e olho de quem já nasceu poeta.

Veio então no dia 17 de novembro de 2017. A reunião decisiva. A vontade era a mesma, mas a responsabilidade era outra.  Um grupo de dez pessoas reunidas na varanda da Casa Singela na rua dos Pombos em Eurico Salles Serra ES, aprovou que o Clube passasse a ser uma Academia de Letras e Artes. Albercinho Nunes lembrou do primeiro sarau com três gatos pingados e declarou que agora eram um exército cultural. Magnólia presente na reunião foi o único voto contra. O Clube CTC tem história, dizia. Mas foi voto vencido. Emílio cobrou estatuto, artigo por artigo. Geraldo fez piada com a palavra Imortal e disse que aceitava, desde que pudesse rimar até depois da morte. Clério bateu o martelo final. O CTC transformava-se em Academia. Nascia a ACLAPTCTC, Academia Capixaba de Letras e Artes de Poetas Trovadores.

Dali em diante, a história acelerou. A Academia tornou-se uma das mais atuantes Academias de Letras e Artes do Brasil. Presente em todos os eventos culturais do Estado do Espírito Santo. Festival, lançamento de livro, oficina em escola de periferia, encontro nacional de trovadores. Onde há cultura capixaba, há uma bandeira da ACLAPTCTC tremulando. O reconhecimento veio com carimbo oficial: Pontão de Cultura da rede Cultura Viva, chancelado pelo Ministério da Cultura do Governo Federal.

Hoje a cena é esta. Um teatro cheio. No palco, os 50 Imortais. Na plateia, os 162 Correspondentes. Nas laterais, os Beneméritos de pé. Na primeira fila, os Infanto Juvenis, ansiosos. Clério comanda, pulso ainda forte. João Roberto abre o sarau. Novos nomes surgem e se transformam em arquivos vivo. A cadeira da imortalidade está lá. Lembra os patronos com rosas vermelha. Trovador Emílio Soares da Costa premiado Trovador confere a métrica de longe, aprovando, com a cabeça. Geraldo Fernandes cutuca o colega e prepara a próxima rima.

Um por um, declamam sua trova. Sete sílabas que contam 46 anos de história. A última é de Clério. A TROVA famosa da Casa Singela. Ele olha para a cadeira dos antigos, depois para os meninos do Infanto Juvenil, e recita. Faz-se silêncio. Um silêncio de sete sílabas. Depois vem o aplauso. Aplauso que derruba o cenário e ecoa até 1980, quando tudo começou numa sala emprestada com poucos homens e mulheres planejando uma revolução de quatro versos. Uma revolução hoje presente com o sucesso da Academia Capixaba de Letras e Artes de Poetas Trovadores ACLAPTCTC um Pontão de Cultura reconhecido com um certificado do Ministério da Cultura do Governo Federal Brasileiro.

A transição do Clube dos Trovadores Capixabas para a atual configuração de Academia representa um marco de amadurecimento institucional e de reconhecimento jurídico no cenário literário do Espírito Santo.

Abaixo, divido a continuidade do seu trabalho entre a evolução cronológica da instituição e os perfis biográficos acadêmicos dos nomes fundamentais citados no início dessa história.

I. A Evolução Institucional: Do CTC à ACLAPTCTC

A metamorfose do Clube dos Trovadores Capixabas (CTC) para a atual Academia Capixaba de Letras e Artes de Poetas Trovadores (ACLAPTCTC) reflete a necessidade de expandir as fronteiras da agremiação, que nasceu focada exclusivamente na trova e passou a abarcar as demais manifestações artísticas e literárias do estado.

1. A Fase Fundacional e a Expansão Nacional (Décadas de 1980 e 1990)

O CTC consolidou-se rapidamente como um polo difusor da cultura popular. A realização de congressos nacionais e seminários de trovadores no Espírito Santo atraiu intelectuais de todo o país. O modelo de atuação descentralizado — que retirava a poesia dos gabinetes e a levava às ruas — exigiu uma estrutura jurídica mais robusta para gerir parcerias com o poder público e a iniciativa privada.

2. A Institucionalização como Academia

A elevação do clube ao status de Academia obedeceu a critérios rigorosos de representatividade cultural. A mudança estatutária e de nomenclatura consolidou a transição de um grupo de entusiastas para uma instituição de direito privado, sem fins lucrativos, organizada em torno de Cadeiras Acadêmicas perpétuas, patronos e membros efetivos (imortais).

3. A Abrangência Multidisciplinar Atual

O acrônimo ACLAPTCTC sintetiza a fusão de suas bandeiras históricas. Ao se tornar uma Academia Capixaba de Letras e Artes de Poetas Trovadores, a entidade preservou a palavra "Trovadores" como sua célula-mãe identitária, mas legitimou a inclusão de romancistas, cronistas, historiadores, artistas plásticos e músicos, convertendo-se em um dos mais dinâmicos sodalícios culturais do território capixaba.

II. Perfis Biográficos dos Fundadores e Articuladores

Para enriquecer a sua pesquisa acadêmica, os perfis abaixo foram estruturados com foco na contribuição bibliográfica, técnica e institucional de cada personagem:

•        Clério José Borges (1950 – Atual): Escritor, historiador, jornalista e poeta. É a liderança aglutinadora do movimento. Detentor do título de Mestre da Cultura Capixaba, foi o principal responsável pela interiorização do CTC e pela sua posterior transição para Academia. Sua atuação confunde-se com a própria sobrevivência institucional da trova no estado através da publicação de antologias e organização de certames literários.

•        Eno Teodoro Wanke (1929 – 2001): Engenheiro de formação e um dos mais profícuos teóricos da trova no Brasil. Embora nascido no Paraná, sua conexão com o Espírito Santo foi vital. Wanke conferiu lastro teórico ao CTC, publicando dezenas de livros sobre a história, a estrutura e a evolução do movimento trovadoresco nacional, sendo o mentor intelectual da fundação do clube.

•        Elmo Elton (1925 – 1988): Considerado o "Príncipe dos Trovadores Capixabas". Advogado, historiador e membro da Academia Capixaba de Letras (ACL). Elton representava a erudição clássica dentro do movimento popular. Sua técnica rigorosa servia de parâmetro de qualidade, conferindo ao recém-criado CTC o respeito e a chancela da elite intelectual da época.

•        Albércio Nunes Vieira Machado: Poeta e trovador. Representa o elo de continuidade e a memória empírica da agremiação. Sua permanência em atividade atua como um testemunho vivo das primeiras reuniões deliberativas e das dificuldades de consolidação do espaço físico e financeiro da entidade nos anos 1980.

•        Emanuel Barcellos e Zedânove Tavares Sucupira: Atuaram como os baluartes da ortodoxia formal do clube. Em um período em que a poesia de vanguarda abandonava as amarras clássicas, ambos exerceram o papel de revisores e julgadores técnicos, garantindo que as produções do CTC mantivessem a pureza da redondilha maior e o rigor das rimas ricas e alternadas.

•        Geraldo Nascimento: O elemento de conexão popular. Sua facilidade com o repente e a trova de improviso desmistificava o academicismo rígido, funcionando como uma ferramenta pedagógica de atração do grande público nas praças e rádios.

•        Matusalém Dias de Moura (1960 – Atual): Advogado, poeta e ensaísta nascido em Iúna. Sua incorporação ao grupo simboliza a interiorização e a capilaridade do movimento. Moura levou a influência da trova do sul do estado para os grandes centros urbanos da Grande Vitória, tornando-se uma das vozes literárias mais premiadas do Espírito Santo.

O Campo em Movimento: Os Congressos Nacionais e a Consolidação do Neotrovismo

A consolidação do antigo Clube dos Trovadores Capixabas (CTC) — hoje Academia Capixaba de Letras e Artes de Poetas Trovadores (ACLAPTCTC) — como uma das instituições literárias mais dinâmicas do país deve-se, fundamentalmente, à sua capacidade de articulação nacional. O grande motor dessa projeção foi a criação de um calendário regular de eventos acadêmicos e festivos que converteu o território capixaba no epicentro do movimento trovadoresco brasileiro.

1. Da Gênese dos Seminários à Itinerância dos Congressos

A tradição teve início logo após a fundação da entidade. Para celebrar o primeiro ano de existência do clube, sob a liderança de Clério José Borges, instituiu-se em 1981 o I Seminário Nacional da Trova.

•        A Primeira Era (1981–2000): Durante duas décadas ininterruptas, realizaram-se 20 Seminários Nacionais. Estes encontros foram fundamentais para expandir o conceito do Neotrovismo — termo cunhado e defendido por Eno Teodoro Wanke para caracterizar a renovação técnica, temática e estética da trova no Brasil a partir dos anos 1980.

•        A Transição para Congressos (2001–Presente): Na virada do milênio, o plenário da instituição deliberou que os encontros passariam a se denominar Congressos Brasileiros de Poetas Trovadores. A mudança refletiu o amadurecimento científico dos debates literários realizados e a adoção de um modelo itinerante, estendendo os congressos a municípios do norte ao sul do Espírito Santo e a outros estados, como o Rio de Janeiro.

•        2. A Estrutura dos Encontros: Rigor Acadêmico e Celebração Popular

Os congressos, estruturados comumente ao longo de quatro dias de atividades gratuitas, diferenciam-se pelo hibridismo entre a erudição literária e a apropriação do espaço público. O cronograma padrão estabelecido pela ACLAPTCTC consolidou-se em torno de cinco pilares fundamentais:

Mesas-Redondas e Oficinas: Espaços voltados à exegese textual, crítica literária e oficinas de criação poética focadas na metrificação de versos heptassílabos e no estudo das rimas.

•        Concursos Relâmpagos de Trovas: Certames em que os poetas inscritos recebem um tema específico na abertura do dia e devem fixar trovas inéditas em envelopes lacrados para a avaliação da banca examinadora.

•        A Troveata: Desfile público dos poetas trovadores pelas ruas das cidades hospedeiras, transformando o fazer poético em uma manifestação coletiva e performática de contato direto com a comunidade local.

•        Serenatas e Recitais noturnos: Resgate da tradição lírico-musical, integrando seresteiros locais e trovadores na ocupação noturna de centros históricos e praças.

•        Missa em Trovas: Celebração sincrética e cultural na qual toda a liturgia e cânticos eclesiásticos são substituídos por composições métricas originais em formato de trova.

3. Impacto Historiográfico e Expansão Multidisciplinar

A realização sistemática desses encontros desempenhou um papel político crucial para a sobrevivência da agremiação. Cidades capixabas como Santa Teresa, Anchieta, Castelo e Ibiraçu acolheram sucessivas edições, resultando no lançamento de mais de duas dezenas de livros e antologias por evento.

Mais do que festejar a métrica poética, os congressos funcionaram como o principal argumento empírico para a elevação do antigo clube ao status de Academia. Ao abrir espaço para as artes plásticas, crônica e música regional, a ACLAPTCTC converteu seus congressos anuais em um relevante patrimônio imaterial da historiografia cultural do Espírito Santo.

 

Clério José Borges
Enviado por Clério José Borges em 02/06/2026
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