Trovas, Neotrovismo, Literatura, Livros, Movimento Trovadoresco, Trovismo, Trovadorismo, Trova, Poesia, Cultura Popular
TEXTO E PESQUISA DE CLÉRIO JOSÉ BORGES
ESCRITOR, POETA TROVADOR CAPIXABA
(Permitido cópias e citações desde que seja citada a fonte).

Continuando a análise de filmes e séries disponíveis nas plataformas de streaming, de modo especial na Netflix, na madrugada desta quinta-feira, dia 23 de julho de 2026, aproveitei a falta de sono para rever o filme “O Menino que Descobriu o Vento” (2019), que já havia assistido há cerca de dois anos atrás e, que se encontra disponível na plataforma de streaming da Netflix.
O filme “O Menino que Descobriu o Vento” narra a emocionante história real de William Kamkwamba, um jovem do Malaui que desafia a miséria sistêmica para salvar sua aldeia da fome crônica. Após uma severa seca destruir as plantações e forçá-lo a abandonar a escola, o garoto usa a inteligência e livros velhos de física para construir um moinho de vento artesanal capaz de bombear água subterrânea.
O Malawi (Malaui) é um país sem litoral localizado no sudeste da África, conhecido como "o coração quente da África" devido à grande simpatia de seu povo. Ele faz fronteira com a Tanzânia, Moçambique e Zâmbia, e é famoso por abrigar o gigantesco Lago Malawi. Fica no sudeste do continente africano (África Oriental/Austral). Limita-se ao norte e nordeste com a Tanzânia, a oeste com a Zâmbia, e a leste, sul e sudoeste com Moçambique. Capital: Lilongué. Idioma oficial: Inglês (além de línguas locais como o cicheua). História: Foi uma colônia britânica com o nome de Rodasia do Nyasaland, tornando-se independente em 6 de julho de 1964.
O filme é altamente recomendado. Trata-se de uma obra cinematográfica imperdível pelo seu imenso valor educativo, pela brilhante atuação do estreante Maxwell Simba e pela primorosa fotografia de Dick Pope. Embora utilize uma estrutura narrativa tradicional de superação, o longa evita o sentimentalismo clichê ao debater com honestidade a negligência política, a crise climática e o choque cultural entre o misticismo e a ciência aplicada.
Em sua estreia por trás das câmeras, o ator Chiwetel Ejiofor demonstra uma maturidade cênica incomum ao assumir a direção de O Menino que Descobriu o Vento. Longe de se render às armadilhas melodramáticas ou ao sentimentalismo apelativo que frequentemente esvaziam as biografias de superação em Hollywood, o cineasta ancora sua narrativa em um compromisso quase documental com a realidade do Malaui. Através da fotografia soberba e texturizada de Dick Pope — que traduz a escassez de recursos na paleta árida e poeirenta que consome a tela —, o filme constrói uma atmosfera de urgência onde a fome não é apenas um motor dramático, mas uma presença física sufocante. É nesse cenário de terra batida e sol inclemente que Ejiofor extrai atuações de um realismo magnético, estabelecendo um paralelo estético sofisticado com o Neorrealismo Italiano ao transformar o olhar resiliente do jovem estreante Maxwell Simba no fio condutor de uma obra que pulsa entre a denúncia política e o triunfo da engenhosidade humana.
O renomado compositor brasileiro Antônio Pinto (filho do cartunista Ziraldo e consagrado por trilhas como Central do Brasil e Cidade de Deus) foi o responsável por criar toda a identidade musical do longa. Para imergir o público no drama da seca do Malaui, Antônio Pinto costurou uma mistura sofisticada de instrumentos tradicionais africanos com arranjos ocidentais.
A música funciona como uma extensão psicológica do protagonista William. Nos momentos de crise e fome profunda na aldeia, a trilha adota notas minimalistas, melancólicas e nostálgicas. Conforme o moinho de vento começa a ganhar forma, a melodia se transforma, injetando ritmos crescentes que simbolizam a esperança e a determinação científica do garoto.
Avaliação dos Atores
O Protagonista (Maxwell Simba): A atuação do jovem estreante foi altamente elogiada pela crítica mundial. Ele foi considerado a grande força motriz emocional do filme, conseguindo transmitir com profunda naturalidade o equilíbrio entre a inocência infantil, o desespero diante da fome sistêmica e a determinação genial de sua mente científica.
Elenco de Apoio (Chiwetel Ejiofor e Aïssa Maïga):
Chiwetel Ejiofor, que interpreta o pai de William, recebeu ótimas avaliações por sua performance densa e orgânica de um homem orgulhoso e desesperado pela destruição de sua terra. A atriz francesa Aïssa Maïga também entrega uma forte presença dramática no papel da mãe.
Avaliação da Direção
O longa-metragem marcou a estreia de Chiwetel Ejiofor como diretor de cinema. A crítica considerou sua direção segura, clássica e honesta. Em vez de apelar para um sentimentalismo barato ou criar um drama puramente focado no sofrimento, Ejiofor optou por dar um forte teor político, social e contextual à narrativa. Um espectador mais apurado chega a observar pequenos desajustes de ritmo na metade do filme, mas o saldo final foi amplamente positivo o credencia Chiwetel como um cineasta promissor.
Avaliação da Fotografia
A fotografia do filme, assinada pelo renomado profissional Dick Pope, foi considerada um dos pontos técnicos mais altos do longa. A câmera captura com maestria o contraste visual do Malaui: a vivacidade inicial das cores culturais africanas que gradativamente dão lugar a uma paleta de cores árida, seca, poeirenta e desbotada conforme a severa seca se espalha pela aldeia.
Ficha Técnica do Filme
Título Original: The Boy Who Harnessed the Wind
Ano de Lançamento: 2019
Países de Origem: Reino Unido / Malaui
Direção e Roteiro: Chiwetel Ejiofor (baseado no livro autobiográfico de William Kamkwamba e Bryan Mealer)
Elenco Principal: Maxwell Simba, Chiwetel Ejiofor, Aïssa Maïga, Lily Banda e Lemogang Tsipa
Direção de Fotografia: Dick Pope
Trilha Sonora: Antônio Pinto (compositor brasileiro)
Duração: 113 minutos
Distribuição: Netflix
Trabalhos Anteriores do Diretor Chiwetel Ejiofor
Como O Menino que Descobriu o Vento foi o primeiro longa-metragem dirigido por Ejiofor, o mesmo não possuía outros grandes filmes comerciais em sua cadeira de direção antes de 2019. No entanto, ele já havia escrito e dirigido o curta-metragem ficcional britânico Columbite Tantalite (2013). Seu imenso prestígio anterior na indústria cinematográfica veio consolidado por sua brilhante carreira como ator. Entre seus trabalhos mais célebres antes de estrear como diretor, destacam-se: 12 Anos de Escravidão (2013): Onde interpretou o protagonista Solomon Northup, papel que lhe rendeu o prêmio BAFTA e uma indicação ao Oscar de Melhor Ator; Coisas Belas e Sujas (2002): Drama aclamado que o colocou em evidência internacional no cinema; Filhos da Esperança (2006): Clássica ficção científica dirigida por Alfonso Cuarón; Doutor Estranho (2016): Blockbuster da Marvel onde interpretou o personagem Karl Mordo. Após o sucesso de sua estreia em 2019, o diretor comandou seu segundo longa-metragem de ficção, a biografia dramática Rob Peace, lançada em 2024.
Embora todo o elenco de atores seja composto por profissionais africanos e britânicos, a equipe de confiança de Antônio Pinto em seu estúdio de gravação no Brasil participou ativamente da execução técnica das partituras. Músicos de estúdio e engenheiros de som brasileiros trabalharam na mixagem das faixas instrumentais antes que o material fosse enviado para a edição final da produção no Reino Unido.
A estreia Internacional do filme ocorreu no dia 25 de janeiro de 2019, durante o prestigiado Festival de Cinema de Sundance, nos Estados Unidos.
A estreia no Brasil e na Netflix: O longa-metragem não chegou a ter um lançamento comercial nos cinemas brasileiros devido ao modelo de distribuição. Sua estreia oficial e simultânea no Brasil e no catálogo mundial da Netflix aconteceu logo em seguida, no dia 1º de março de 2019
Prêmios e Indicações pela Direção (Chiwetel Ejiofor)
A transição do renomado ator para a cadeira de diretor foi amplamente celebrada em premiações focadas em excelência de narrativa e impacto social:
Festival de Cinema de Sundance (2019): Vencedor do cobiçado Prêmio Alfred P. Sloan. Essa honraria é concedida especificamente a filmes que retratam a ciência, a tecnologia ou a matemática de forma inovadora e inspiradora.
NAACP Image Awards (2020): Vencedor na categoria de Melhor Direção em Cinema (Outstanding Directing in a Motion Picture). O prêmio norte-americano celebra as maiores conquistas artísticas de pessoas negras na indústria global.
British Independent Film Awards - BIFA (2019): Recebeu a prestigiada indicação ao The Douglas Hickox Award, prêmio destinado ao Melhor Diretor Estreante do ano no cinema independente britânico.
International Film Festival and Forum on Human Rights (2019): Vencedor do Grande Prêmio de Ficção (Fiction Grand Award), validando o teor humanitário e político de sua direção.
Family Film Awards (2021): Vencedor na categoria de Melhor Ator em Filme para Televisão por sua dupla jornada atuando e guiando o elenco principal.
Reconhecimento pela Música (Antônio Pinto)
Embora as grandes premiações de cinema tenham concentrado suas categorias musicais em produções de lançamento estritamente comercial em salas físicas (barrando produções com janelas diretas para streaming nas regras da época), a trilha sonora foi um dos pilares mais elogiados pelas associações de críticos mundiais:
Aclamação Crítica Universal: A composição do brasileiro foi listada por múltiplos portais especializados e círculos de críticos independentes (como no circuito de festivais parceiros da Heartland Film onde o longa levou o prêmio Truly Moving Picture Award) como uma das partituras instrumentais mais orgânicas e imersivas do ano de 2019.
A mistura de instrumentos autóctones africanos com a identidade rítmica contemporânea desenhada por Antônio Pinto garantiu que o filme mantivesse uma aura autêntica, impulsionando a nomeação do longa para prêmios como o Black Reel Awards (2020) na categoria de Melhor Filme Estrangeiro/Internacional.
Além do destaque individual em música e direção, a obra teve o ápice de seu reconhecimento institucional ao ser selecionada como a representante oficial do Reino Unido para concorrer a uma vaga na categoria de Melhor Filme Internacional no Oscar 2020.
As cenas com as figuras mascaradas em O Menino que Descobriu o Vento exercem um papel antropológico e narrativo crucial no filme. Tanto na realidade cultural do Malaui quanto na ótica dos críticos de cinema, essas aparições carregam significados profundos:
As figuras misteriosas fantasiadas com grandes máscaras de palha, penas, madeira e panos representam os Gule Wamkulu (que significa "Grande Dança"). Eles não são apenas nativos "fantasiados" ou uma atração festiva, mas membros de uma sociedade secreta ritualística tradicional do povo Chewa, a maior etnia do Malaui
O Significado Espiritual: Na crença popular local, quando os dançarinos vestem essas vestimentas e sobem em pernas de pau ritmadas por tambores acelerados, eles deixam de ser humanos. Eles passam a incorporar temporariamente os espíritos dos ancestrais mortos e animais selvagens.
A Função Social: Historicamente, os Gule Wamkulu aparecem apenas em cerimônias de extrema relevância: funerais de grandes chefes da tribo, rituais de iniciação masculina (passagem de meninos para homens) e casamentos. Suas danças teatrais servem para contar lendas antigas, impor o código moral do povo e alertar a comunidade contra comportamentos inadequados. O ritual é considerado um Patrimônio Cultural Imaterial da Humanidade pela UNESCO.
A reação da crítica especializada ao uso dos Gule Wamkulu na adaptação dirigida por Chiwetel Ejiofor foi altamente positiva, sendo avaliada sob dois aspectos principais:
O Contraste entre Tradição e Modernidade: Os críticos elogiaram a sensibilidade da direção ao não retratar essas figuras com exotismo folclórico barato. Em vez disso, o filme os utiliza para mostrar como o povo lida com a dor. Enquanto a fome destrói a economia da aldeia e a política falha, a comunidade busca refúgio nas suas tradições ancestrais. O moinho tecnológico criado por William não anula o misticismo do seu povo; eles coexistem.
Construção de Clima Atmosférico: Visualmente, as aparições repentinas dos dançarinos mascarados ao longo do filme (como no funeral do chefe comunitário) foram destacadas por trazerem uma aura de urgência, peso dramático e misticismo à tela. O som frenético dos tambores africanos funciona quase como um alerta de que os tempos de provação e crise espiritual da aldeia chegaram ao ápice.
O livro autobiográfico O Menino que Descobriu o Vento (coescrito com o jornalista Bryan Mealer) foi lançado originalmente em 29 de setembro de 2009, tornando-se rapidamente um best-seller internacional. Nas páginas iniciais do livro, William descreve que, durante sua infância em Wimbe, o seu maior terror absoluto não eram as feras selvagens, mas sim os Gule Wamkulu.
O Terror do Desconhecido: Ele relata que as crianças da região cresciam ouvindo que os dançarinos mascarados eram criaturas sobrenaturais e feiticeiros ressuscitados diretamente dos cemitérios. William detalha que, sempre que avistava um Gule Wamkulu nas estradas de terra ou perto das plantações de milho, ele largava tudo o que estava fazendo e corria desesperadamente para se esconder no mato, cobrindo os olhos de pavor. Havia o mito de que, se um garoto olhasse diretamente para as máscaras ou fosse pego por eles, seria raptado e levado para rituais secretos no coração da floresta.
A Transição na Fome: Esse medo infantil serve como um forte contraste narrativo na biografia: o menino que antes tremia diante do misticismo tradicional e das superstições da sua aldeia, anos mais tarde, passa a usar a lógica, a física e a ciência ocidental para salvar essa mesma comunidade da morte por inanição.
O que faz atualmente William Kamkwamba? Hoje, graduado em Estudos Ambientais pelo Dartmouth College, William atua como engenheiro, empreendedor social e palestrante internacional.
Na minha (Clério José Borges) avaliação, considero que o longa evita armadilhas comuns de filmes motivacionais (como o sentimentalismo exagerado ou a exploração apelativa da miséria) ao ancorar a história em debates estruturais legítimos, como o analfabetismo, a negligência governamental e o choque entre tradições místicas e a ciência aplicada.
O principal ponto de atenção negativa que observei e que foram observados também por outros críticos se refere ao ritmo narrativo, considerado lento ou "arrastado" em sua metade, além de uma estrutura de roteiro previsível. No entanto, as excelentes atuações de Maxwell Simba e Chiwetel Ejiofor sustentam o impacto da obra.
Analisando a obra, a minha nota alinhando as métricas oficiais e o peso artístico dentro de seu gênero é: Nota: 7,8 / 10.
Por que essa nota? O filme atinge níveis de excelência na fotografia texturizada de Dick Pope, na composição musical do brasileiro Antônio Pinto e na mensagem profundamente educativa. É um filme que cumpre com maestria sua proposta inspiradora, perdendo pontos apenas por não revolucionar a fórmula tradicional do cinema de superação ou por seus pequenos deslizes no ritmo de montagem.
Análise Comparativa do Impacto Crítico
O Gigante Inalcançável (Hotel Ruanda) filme para o qual eu atribuo a nota 7,3 / 10.
Hotel Ruanda continua sendo a maior referência do gênero devido ao seu peso histórico devastador e alcance global.
O Diferencial Narrativo: Enquanto obras como Mandela pecam por tentar abraçar décadas de história em poucas horas (gerando roteiros apressados de 7,1 / 10), O Menino que Descobriu o Vento foca em um recorte geográfico e temporal muito específico. Esse foco minimalista e o peso da fotografia texturizada deram ao filme uma precisão dramática superior à de superproduções convencionais.
Equilíbrio Perfeito: O longa supera também o carismático Rainha de Katwe da Disney (7,2 / 10) por adotar uma abordagem social mais crua, realista e politicamente engajada sobre a negligência governamental e a seca, afastando-se da clássica fórmula de final feliz previsível de estúdio.
Ao comparar uma obra contemporânea de streaming como O Menino que Descobriu o Vento (2019) com os pilares fundamentais da história do cinema mundial, a perspectiva de avaliação muda drasticamente. Filmes como Cidadão Kane ou Ladrões de Bicicleta não são avaliados apenas pelo entretenimento ou pela emoção da narrativa, mas sim pelas revoluções técnicas, estéticas e de linguagem que introduziram e que moldaram tudo o que veio depois.
Quando colocamos o filme de Chiwetel Ejiofor nesta prateleira de elite, a nota cai de 7,8 para 5,5 / 10. Isso ocorre pelos seguintes fatores técnicos e artísticos:
Inovação de Linguagem vs. Repetição de Fórmula: Clássicos como Cidadão Kane inventaram novas formas de filmar. Já O Menino que Descobriu o Vento não traz nenhuma inovação técnica ou estética para a história do cinema. Ele utiliza uma estrutura de roteiro perfeitamente tradicional e previsível (a clássica "Jornada do Herói"), sem arriscar na montagem ou na direção de arte.
O Elo com Ladrões de Bicicleta: O clássico italiano de Vittorio De Sica é a comparação mais justa em termos de tema (a luta desesperada de uma família contra a miséria sistêmica). Porém, enquanto Ladrões de Bicicleta quebrou as regras da época ao adotar um final devastador, realista e sem concessões comerciais, o filme da Netflix opta por uma resolução mais reconfortante e inspiradora, típica do padrão de Hollywood.
Fotografia e Paisagem (Shane e No Tempo das Diligências): O trabalho do fotógrafo Dick Pope no Malaui é belíssimo e texturizada. Contudo, a forma como John Ford usou o Monument Valley em No Tempo das Diligências ou como Shane usou as montanhas para espelhar a solidão dos personagens revolucionou a própria composição visual do espaço no cinema, algo que o filme de 2019 emula bem, mas não expande.
Conclusão. Como um produto cultural de sua época, O Menino que Descobriu o Vento é um filme fantástico, comovente e de enorme valor educativo. No entanto, na história da arte cinematográfica, ele se posiciona como um aluno aplicado que executa perfeitamente as lições que os clássicos acima inventaram.
O paralelo entre a atuação do jovem queniano Maxwell Simba (como William Kamkwamba) e as icônicas performances dos atores mirins do Neorrealismo Italiano — como Enzo Staiola (o pequeno Bruno em Ladrões de Bicicleta, 1948) ou Rinaldo Smordoni e Franco Interlenghi (Vítimas da Tormenta, 1946) — revela profundas conexões estéticas, sociológicas e de direção entre dois cinemas separados por sete décadas.
A maior marca do Neorrealismo Italiano de diretores como Vittorio De Sica e Roberto Rossellini foi a rejeição a estrelas de estúdio e a escolha de pessoas comuns das ruas para interpretar os papéis. Eles buscavam rostos marcados pela realidade da pós-guerra, que não precisassem "fingir" sofrimento ou cansaço.
O Paralelo: Chiwetel Ejiofor adotou rigorosamente essa filosofia ao escalar Maxwell Simba. Simba não era um ator profissional de Hollywood ou do circuito europeu; ele era um estudante queniano comum. Assim como Enzo Staiola trazia em seus olhos o reflexo da Roma devastada, Simba entrega na tela uma verdade corporal e expressiva que vem de sua própria vivência no leste africano. Suas reações ao calor, à poeira e ao cansaço não são coreografadas; elas são autênticas.
O Olhar Infantil como Testemunha da Tragédia Adulta. No cinema neorrealista, a criança frequentemente funciona como a bússola moral e a testemunha silenciosa do colapso do mundo dos adultos. Em Ladrões de Bicicleta, Bruno assiste ao desespero e à humilhação moral de seu pai para conseguir um emprego. O Paralelo: William, interpretado por Simba, vive exatamente a mesma dinâmica. Através de seus olhos grandes e expressivos, o público testemunha o desespero de seu pai (Chiwetel Ejiofor) diante da plantação seca, a violência governamental nas filas de distribuição de alimentos e a degradação social da aldeia. A atuação de Simba é contida; ela se constrói muito mais na escuta e na observação do que em grandes monólogos dramáticos, ecoando perfeitamente a tradição italiana do cinema de observação.
A Expressão Corporal sobre a Técnica Cênica. Atores mirins treinados em escolas de teatro costumam projetar a voz de forma artificial e usar expressões faciais exageradas para sinalizar emoções (choro, raiva, medo). Os meninos do Neorrealismo agiam pelo instinto e pela reação direta ao ambiente físico ao redor.
O Paralelo: Maxwell Simba entrega uma atuação predominantemente física e tátil. O público acredita em seu personagem pelo modo como ele manuseia as peças de metal no lixão, como caminha com os ombros curvados sob o sol escaldante ou como segura os livros escolares como se fossem tesouros. Essa fisicalidade orgânica é o que mais o aproxima dos personagens do pós-guerra italiano, onde o corpo do ator precisava carregar o peso do contexto econômico e geográfico da história.
A Diferença Fundamental: O Destino do Herói. Apesar das semelhanças absurdas de método, o paralelo encontra uma bifurcação drástica no desfecho ideológico das produções:
O Neorrealismo Italiano: Mantinha um compromisso rígido com o pessimismo da realidade. As crianças terminavam os filmes integradas a um ciclo de pobreza contínua ou desilusão moral crônica (como o choro final de Bruno de mãos dadas com o pai derrotado).
Maxwell Simba em O Menino que Descobriu o Vento: Embora o filme utilize a estética realista e crua dos italianos durante 80% da projeção, o roteiro contemporâneo da Netflix exige a catarse da Jornada do Herói clássica de Hollywood. A atuação de Simba, portanto, transita da vulnerabilidade neorrealista para o triunfo inspirador do melodrama moderno.
Para extrair performances de profunda verdade e naturalidade em sua estreia como diretor, Chiwetel Ejiofor adotou métodos de direção que misturam técnicas clássicas do teatro britânico com o cinema de guerrilha e abordagens antropológicas. O processo de preparação e condução do elenco no set estruturou-se em cinco pilares fundamentais:
Imersão Cultural Total e Convivência Prévia. Antes de rodar a primeira cena, Ejiofor levou o elenco principal — incluindo o estreante Maxwell Simba — para viver na própria comunidade de Kasungu, no Malaui, onde a história real aconteceu.
O Método: Os atores não ficaram confinados em hotéis. Eles passaram semanas convivendo com os moradores locais, aprendendo a rotina da agricultura de subsistência, a dinâmica de escassez de água e o ritmo do vilarejo. Isso fez com que, no momento das filmagens, os corpos dos atores já estivessem adaptados ao sol escaldante, à poeira e ao cansaço físico real da região, eliminando qualquer artificialismo cênico.
O Uso do Idioma Chichewa como Âncora de Realismo. Embora o filme seja distribuído globalmente pela Netflix, Ejiofor tomou a decisão crucial de fazer com que os personagens falassem predominantemente o Chichewa (a língua nativa do Malaui), mesclada com o inglês.
O Método: O próprio Ejiofor (que é britânico de ascendência nigeriana) passou meses estudando e dominando o idioma para conseguir dirigir os atores na língua local. Para Maxwell Simba e os atores coadjuvantes nativos, falar sua própria língua no set trouxe um nível de relaxamento e expressividade orgânica que seria totalmente bloqueado se eles fossem forçados a atuar em um inglês perfeitamente articulado ou artificial.
Direção Baseada em Estímulos Sensoriais (Reação em vez de Atuação). Seguindo preceitos que remetem ao neorrealismo e às técnicas de Constantin Stanislavski, Ejiofor evitou dar marcações puramente técnicas aos atores (como "chore aqui" ou "ande até aquele ponto com raiva").
O Método: Ele trabalhava com estímulos reais. Nas cenas que retratam a fome devastadora, o diretor pedia que o elenco focasse na sensação física da fraqueza, no peso do silêncio da aldeia e na poeira que invadia os cenários. A maquiagem e o design de produção foram mantidos extremamente crus. Maxwell Simba não precisava "imaginar" o lixo eletrônico; ele foi colocado para garimpar em sucatas reais, fazendo com que sua curiosidade e esforço físico na tela fossem absolutamente genuínos.
Proteção Psicológica e Espaço de Confiança para Maxwell Simba. Dirigir um jovem sem nenhuma experiência anterior no cinema exige um cuidado especial para evitar que a pressão do set trave sua espontaneidade.
O Método: Ejiofor construiu uma relação de "pai e filho" com Simba fora das câmeras, espelhando a relação de seus personagens. Ele blindou o jovem ator das pressões logísticas da equipe técnica (luzes, microfones, cronogramas). No set, as conversas entre os dois eram feitas em tom baixo, quase sussurradas. O diretor dava liberdade para Simba errar as falas do roteiro, contanto que mantivesse a intenção emocional da cena, priorizando o improviso controlado sobre a memorização rígida de textos.
Contraste de Energia entre o Elenco Profissional e os Nativos. O filme promove o encontro de veteranos do cinema internacional (como a atriz francesa Aïssa Maïga e o próprio Ejiofor) com moradores locais do Malaui que atuaram como figurantes e coadjuvantes.
O Método: Ejiofor usou a técnica de "contágio de energia". Ele pedia que os atores profissionais suavizassem suas técnicas teatrais para absorver a crueza dos nativos, enquanto usava a presença imponente dos profissionais para extrair o respeito e a vulnerabilidade real que o roteiro exigia dos personagens mais jovens. O resultado é uma comunidade que pulsa de forma homogênea na tela, onde o espectador esquece quem é ator de Hollywood e quem é morador local.
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FILMES NOTAS DEZ
Nas minhas avaliações (Avaliações de Clério José Borges), continuam como Filmes Recomendáveis ainda com NOTA DEZ:
1) O filme No Tempo das Diligências (Stagecoach), lançado em 1939, é um clássico absoluto do gênero faroeste (western) dirigido por John Ford.
2) Considerado um dos maiores marcos da história do cinema, Cidadão Kane (Citizen Kane), lançado em 1941, foi dirigido, produzido e estrelado por Orson Welles.
3) SHANE, que no Brasil recebeu um título horrível: “Os Brutos Também amam” - filme Shane (no Brasil, Os Brutos Também Amam), clássico do faroeste lançado em 1953, foi dirigido por George Stevens.
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Quem é o Crítico de Cinema, Jornalista, Poeta Trovador, Mestre da Cultura Capixaba e Comendador Clério José Borges?
Foto de Clério José Borges.
CLÉRIO BORGES, JORNALISTA PROFISSIONAL,
COM CARTEIRA ASSINADA E CRÍTICO DE CINEMA.
Clério José Borges trabalhou no jornal A Tribuna, em Vitória (ES), no período de 1969 a 1972. Durante esses anos, ele percorreu diversas etapas da carreira jornalística:
Começou como foca (Estagiário), em 1969. Foi promovido depois a Repórter e Redator e Chefe de Reportagem.
Atuou em diversas editorias, desde Editoria Geral até a Editoria Política até encontrar sua real vocação. Ser um Crítico de Cinema, especializando-se como comentarista e crítico de filmes.
Foi promovido a Chefe de Reportagem, cargo máximo que alcançou antes de encerrar seu ciclo como Jornalista e, no jornal A TRIBUNA. Trabalhou também, durante algum tempo no jornal O Diário, de Vitória, ES, conhecido também como “O Diário da Rua Sete”, cuja redação estava localizada na Rua Sete de Setembro no Centro de Vitória, Capital Capixaba.
Em seguida fundou a POP ART Promoções e passou a realizar Cursos de Iniciação ao Jornalismo e Comunicação Social em várias cidades do Espírito Santo e de Minas Gerais, orientando jovens estudantes, durante um período de aproximadamente dois anos. Mais de Dez mil alunos acabaram se matriculando em Cursos realizados desde as Cidades de Barra de São Francisco, Conceição da Barra, Cachoeiro de itapemirim, Linhares e Bom Jesus do Norte até Mantena, Resplendor e Governador Valadares em Minas Gerais.
Em seguida fez Concurso Público, ingressando no Serviço Público Estadual na área de Segurança Pública, trabalhando durante 35 anos como Escrivão da Polícia Civil, (atualmente o Cargo é Oficial de Polícia Civil) período em que recebeu as Medalhas de Bronze, Prata e Ouro por serviços prestados a Comunidade Capixaba. Como Escrivão realizando a oitiva das pessoas, conseguiu subsídios para a publicação de um dos seus 15 a 20 livros já publicados denominado de "Dicionário Regional de Gírias e Jargões da Malandragem" cujo lançamento oficial no dia 19 de abril de 2012, no Estado do Espírito Santo, publicação de um mil exemplares, viabilizada pela Lei de Incentivo à Cultura do Município de Serra, ES, a Lei Chico Prego.
Além de seu trabalho com Carteira Profissional assinada, no Jornal A Tribuna, de Vitória, ES, Clério José Borges foi correspondente da "Revista Intervalo" na mesma época, onde ganhou destaque por cobrir o episódio em que o cantor Tony Tornado saltou sobre a plateia no Festival de Verão de Guarapari, em 1971. A Revista Intervalo (1963–1972) foi a primeira grande publicação impressa brasileira dedicada exclusivamente ao universo da televisão. Lançada pela Editora Abril, trazia programação de TV, notícias sobre celebridades, bastidores das emissoras, fotonovelas e cartazes, consolidando-se como um guia essencial para o telespectador nos anos 1960.
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BIOGRAFIA RESUMIDA:
Clério José Borges é Escritor, Historiador, Poeta, Comendador e Trovador Capixaba. Nasceu no bairro de Aribiri, no Município de Vila Velha, Espírito Santo. Fundou e preside desde 1º de julho de 1980 o Clube dos Trovadores Capixabas CTC, que no dia 18 de novembro de 2017 transformou-se na Academia ACLAPTCTC, Academia de Letras e Artes de Poetas Trovadores. Foi fundador e primeiro Presidente da Academia de Letras e Artes da Serra, de sigla ALEAS. É morador do Município da Serra, ES, desde 1979 e Cidadão Serrano desde 26 de dezembro de 1994, tendo recebido o título das mãos do Prefeito João Batista Motta, por indicação da então Vereadora Izolina Márcia Lamas da Silva. É também Cidadão cariaciquense, da Cidade de Cariacica, ES, desde 14 de Julho de 2022, título outorgado pela Câmara Municipal de Cariacica, numa homenagem do Vereador Edson Nogueira.
Foi Jornalista dos Jornais A TRIBUNA e O DIÁRIO, de Vitória, ES, onde atuou de Foca a Chefe de Reportagem se especializando como comentarista e crítico de Filmes.
Foi Conselheiro Titular do Conselho Estadual de Cultura do Espírito Santo, de 1989 a 1993 e Conselheiro Suplente e Colaborador de 1993 ao ano 2002. Conselheiro Titular da Câmara de Literatura do Conselho Municipal de Cultura da Serra, de 24/09/1997 a 20/07/2012, ou seja, durante o período de 14 anos, 09 meses e vinte dias.
É Senador da Cultura, título recebido pela Sociedade de Cultura Latina do Brasil e, é Mestre da Cultura Capixaba. Possui pouco mais de 30 livros publicados, sendo alguns individuais e outros como organizador de Coletânea e Antologias, destacando-se as obras, “Serra, Colonização de uma Cidade” e a obra em forma de Livreto da Literatura de Cordel, "O Vampiro Lobisomem de Jacaraípe" e o Livro “Dicionário Regional de Gírias e Jargões"
É Técnico de Contabilidade e estudou Pedagogia e Direito na UFES. Pertence a diversas entidades, Associações e Academias de Letras e Artes no Espírito Santo, no Brasil e no Exterior.
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